Quando É Que o Novo Milénio Começará?
por Peter Meyer

English version

A resposta rápida é:

Se se utilisar o calendário Gregoriano e se se começar o primeiro milénio no ano 1 AD então o terceiro milénio começa no ano 2001 AD. Mas se se utilisar o calendário da Era Comum (EC), no qual os anos são numerados 2, -1, 0, 1, 2, ..., e começando o primeiro milénio no ano 0 EC então o terceiro milénio começa no 2000 EC. Cada um escolhe como entender. Se se optar pelo calendário da Era Comum, não temos que nos preocupar com assercões muito pouco ambiciosas de que "não existiu ano zero (e portanto o novo milénio começa em 2001)". O ano zero não existia quando o papa Gregório XIII introduziu o seu calendário Gregoriano no século XVI mas certamente que existe hoje em dia e portanto o novo milénio no calendário da Era Comum começa no ano 2000 EC.

Para uma resposta mais longa e detalhada, por favor continue a ler.


Esta é uma questão que provoca grande controvérsia, divide famílias e causa noites a fio sem sono. Espero que este artigo dissipe a confusão à volta desta questão e permita que o leitor faça uma escolha devidamente informada.
A maior parte dos "experts" em questões de calendários dirá que o novo milénio começará em 1 de Janeiro do ano 2001, apesar do facto de que esta resposta não é o que a maior parte das pessoas gostaria de ouvir (porque apesar do que os "experts" dizem, elas pretendem celebrar o novo milénio no dia 1 de Janeiro de 2000). Portanto, vejamos primeiro porque é que os "experts" geralmente mantêm esse ponto de vista, após o que nós poderemos considerar se queremos ou não concordar com eles.


O calendário mais geralmente utilizado hoje em dia teve origem aquando da reforma do calendário em 1582 pelo Papa Gregório XIII [para mais informações ver Os Calendários Juliano e Gregoriano (em inglês)]. No calendário Gregoriano os anos são numerados "Anno Domini" (AD), significando o ano do nosso Senhor (i.e., Jesus Cristo). Este sistema de numeração de anos foi instituído no ano 525 por um abade chamado Dionysius Exiguus. No império romano os anos tinham sido enumerados simplesmente contado o número de anos que passaram desde a ocorrência de um determinado evento, como o ano da fundação da cidade de Roma ou o início do reinado de um dado imperador. Dionysius, sendo cristão, acreditava que este sistema pagão deveria ser substituído por um outro em que os anos eram enumerados através da contagem do número de anos que passaram desde que Jesus nasceu. Tal como o Observatório da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Naval Observatory) refere:
Muitos inícios de eras têm sido usados para a contagem de anos em calendários. Frequentemente, os anos são contados seguindo uma regra de contagem crescente. No entanto, para que uma era seja útil ela terá que estar ligada a uma sucessão de eventos históricos documentados. Isto pode ser ilustrado através da escolha do nascimento de Cristo como a data inicial da era dos calendários Juliano e Gregoriano. Esta era foi instituída por Dionysius Exiguus, no século VI, aquando da elaboração de uma tabela contendo as datas da Páscoa. Dionysius preparava-se para seguir a tradição ao estender a tabela existente de modo a cobrir um período de 19 anos, de 228 a 247, contados a partir do inicio de reinado do imperador Dioclécio. No entanto, ele não quis que a sua tabela de datas da Páscoa "perpetuasse a memória de um perseguidor ímpio da Igreja, preferindo em vez disso a contagem e enumeração de anos a partir da Encarnação do nosso Senhor Jesus Cristo." Sendo assim, ele designou os anos na sua tabela como sendo os anos 532 a 550 Anno Domini Nostri Jesu. Assim, o ano 532 Anno Domini de Dionysius é equivalente ao ano 248 Anno Diocletiani, sendo estabelecida uma correspondência entre a nova Era Cristã e um sistema existente associado com eventos históricos documentados. O que Dionysius não fez foi estabelecer uma data precisa do nascimento de Cristo. Embora académicos geralmente acreditem que Cristo nasceu uns anos antes de 1 AD, os registos não são suficientemente precisos para permitir uma datação definitiva.[ver: The 21st Century and the 3rd Millennium — When Will They Begin?]
A estimativa do ano em que Jesus nasceu está desfasada em cerca de 5 anos (Jesus nasceu entre 6 a.C., quando o imperador Augustus publicou um decreto para o recenseamento da população, e 4 a.C., ano em que Herodes faleceu). No entanto, este facto foi em geral desconhecido até cerca de 1400 anos após a altura em que Dionysius viveu e portanto, na Europa Cristã desde a Idade Média até hoje, os anos foram designados usando este sistema de contagem crescente dos anos desde o primeiro (o ano no qual Jesus nasceu, ou antes, foi suposto ter nascido). Esta sucessão crescente não foi interrompida pela reforma Gregoriana do calendário na qual, embora tendo sido removidos dez dias do calendário, o sistema de numeração e contagem dos anos não foram alterados.

Uma vez que os anos "Anno Domini" só passaram a existir a partir do século VI A.D. é artificial falar dos anos 1 A.D., 100 A.D., etc., porque as populações que viviam nessas épocas não sabiam absolutamente nada acerca deste sistema de numeração de anos (dado que ainda não tinha sido inventado). Além disso, os romanos no reinado de César Augusto (27 a.C. a 14 A.D.) eram algo relaxados quanto à observância e cumprimento dos anos bissextos. No entanto nós podemos fazer uma projecção temporal na direcção do passado (ou futuro) a partir do ano 525 A.D. representando a sucessão dos anos através da série dos números naturais: 1, 2, 3, ..., 100, ..., 500, ... Podemos então dizer que o período de dez anos desde 1 A.D. até 10 A.D. (inclusive) constitui uma década. Do mesmo modo o período de 1 A.D. até 100 A.D. constitui um século e o período de 1 A.D. até 1000 A.D. constitui um milénio.

A palavra "milénio" significa "um período de 1000 anos", portanto podemos concluir que de 1 A.D. até 1000 A.D. (inclusive) constitui um milénio, sendo o primeiro da era Cristã. Assim, o segundo milénio da era Cristã começa com o ano 1001 A.D. ou mais precisamente, em 1 de Janeiro de 1001 A.D e o terceiro milénio da era Cristã começa em 1 de Janeiro de 2001 A.D. Portanto para os cristãos - ou pelo menos aqueles que adoptam o sistema cristão de numeração de anos, a resposta é clara: O novo milénio começa em 1 de Janeiro de 2001 A.D.


No entanto isto não é o fim da questão, porque o sistema de numeração de anos "Anno Domini" tem uma anomalia fatal, nomeadamente, funciona bem de 1 A.D. para a frente (futuro), mas o que acontece quando se vai de 1 A.D. para trás (passado)? Como é do conhecimento geral, tais anos são numerados em ordem decrescente e designados anos "antes de Cristo". Assim, o ano imediatamente antes de 1 A.D. é designado 1 a.C. e a série continua em direcção ao passado: 2 a.C., 3 a.C., etc.
Com o progresso da ciência, nomeadamente a astronomia, arqueologia e estudos cronológicos, este sistema de numeração de anos tornou-se desadequado em aplicações científicas. Nomeadamente, não se presta facilmente para cálculos envolvendo datas. Um (simples) exemplo, quantos anos decorreram entre 1 de Janeiro de 6 a.C. e 1 de Janeiro de 6 A.D.? Doze anos? Não. A resposta não é óbvia (e menos ainda se considerarmos longos períodos tais como de 535 a.C. até 481 A.D.).
Portanto, astrónomos e cronologistas decidiram numerar os anos usando uma sucessão de anos representados através da série infinita dos números inteiros (positivos e negativos, incluindo o zero): ..., -3, -2, -1, 0, 1, 2, 3, ... Este é o chamado sistema "astronómico de numeração de anos. Neste sistema, os anos 1 e posteriores são representados pelos mesmos números que os usados nos anos A.D. (ano 1 = 1 A.D., ano 2 = 2 A.D., etc.) mas os anos a.C. estão relacionados do seguinte modo: O ano 0 do sistema astronómico corresponde ao ano 1 a.C., o ano -n do sistema astronómico corresponde ao ano n+1 a.C. (para n = 1, 2, 3, ...). Inversamente, o ano n a.C. corresponde ao ano-(n-1) do sistema astronómico. Assim, ano -1 = 2 a.C., ano -2 = 3 a.C., etc.
O sistema de numeração astronómico torna o cálculo de datas muito mais fácil. Considere-se a questão referida acima, quantos anos decorreram entre 1 de Janeiro de 6 a.C. e 1 de Janeiro de 6 A.D.? No sistema astronómico a questão torna-se: Quantos anos decorreram entre 1 de Janeiro de -5 e 1 de Janeiro de 6? A resposta é 6-(-5) = 11 anos.
Uma outra razão para usar o sistema astronómico de numeração de anos é o de que este torna mais simples a aplicação das regras para determinar anos bissextos para anos anteriores a 1 A.D. A maior parte dos anos divisíveis por 4 são bissextos. Foram os anos 4 a.C., 8 a.C., 12 a.C., etc., anos bissextos? Não. No entanto, se usarmos o sistema astronómico, os anos 4, 0, -4, -8, etc. são bissextos.


Suponhamos que escolhemos reter a estrutura do calendário Gregoriano (1 ano = 12 meses, 1 semana = 7 dias, etc.) mas resolvemos substituir o sistema de numeração anos "Anno Domini" pelo sistema astronómico de numeração de anos. Que implicações é que isso terá na questão acerca de quando é que o novo milénio começará? O Observatório da Marinha dos E.U.A julga que não terá nenhuma porque embora mencione o sistema astronómico de numeração de anos no documento referido acima, continua a afirmar que o novo milénio começa em 1 de Janeiro de 2001.
Um milénio é, por definição, um periodo de 1000 anos mas não faz parte dessa definição que um milénio deve começar (ou acabar) num determinado ano. Se adoptarmos o sistema astronómico de numeração de anos, poderemos começar o "primeiro" milénio tanto com o número 0 como com o número 1, Estritamente falando, não existe primeiro milénio no sistema astronómico, uma vez que este numera os anos fazendo-os corresponder simplesmente à sequência dos números inteiros ..., -2, -1, 0, 1, 2, ..., sendo qualquer um livre de começar milénios quando bem entender. Assim, porque não dividir estes números em segmentos de 1000 tal como mostrado abaixo:

-2000

Até

-1001,

 

-1000

Até

-1,

 

0

Até

999,

o "primeiro" milénio

1000

Até

1999,

o "segundo" milénio

2000

Até

2999,

o "terceiro" milénio

etc.

Porque não? Para não cristãos não existe nenhuma razão para que assim não seja.
Em cada milénio poderemos distinguir séculos como por exemplo:

1000

até

1099,

o "décimo primeiro" século

1100

até

1199,

o "décimo segundo" século

...

1900

até

1999,

o "vigésimo" século

2000

até

2099,

o "vigésimo primeiro" século

2100

até

2199,

o "vigésimo segundo" século

etc.

Em cada século teremos que, por exemplo, de 1990 até 1999 a décima década de vigésimo século e do ano 2000 até 2009 a primeira década do século 21.


É portanto claro que a questão acerca de quando o novo milénio começará depende do sistema de numeração de anos que se escolha. Os cristãos talvez prefiram continuar a utilizar o sistema de anos "Anno Domini" em que a resposta a essa questão deverá ser 1 de Janeiro de 2001 A.D. Cientistas e outras pessoas que preferem um sistema racional e mais útil de numeração de anos talvez escolham adoptar explicitamente o sistema astronómico. Nesse caso eles serão livres de começar milénios em 1, 1001, 2001, etc. (neste caso o terceiro milénio começará em 1 de Janeiro de 2001) ou em 0, 1000, 2000, etc. (neste caso o terceiro milénio começará em 1 de Janeiro de 2000).
Assim qualquer um que queira, qualquer que seja a razão, celebrar o início do novo milénio em 1 de Janeiro de 2000 tem bons e racionais fundamentos para tal, nomeadamente, (i) a adopção do sistema astronómico de numeração de anos combinado com (ii) a convenção de começar os milénios com os anos cujos números acabem em "000" (e começar séculos com anos cujos números acabem em "00").
Deve-se notar que este artigo não pretende mostrar que aqueles que mantêm (tal como todos aqueles que obedecem ao calendário cristão deverão manter) que o novo milénio começa em 1 de Janeiro de 2001 estão enganados. Essas pessoas têm razões para justificar essa preferencia.. O que este artigo demonstra é que qualquer um que prefira pensar no ano 2000 como o primeiro do novo milénio tem perfeitamente boas razões para proceder como tal e manter que:
O novo milénio começa em 1 de Janeiro do ano 2000.


Dado que existirão grandes comemorações na madrugada do terceiro milénio, poderemos perguntar: O que é que se está a comemorar?
Claro que os cristãos responderão o nascimento de Cristo (podendo mesmo acrescentar algumas expectativas apocalípticas relacionadas com a segunda vinda do Senhor). No entanto, uma vez que Jesus nasceu em -3 (4 a.C.) ou antes, o 2000mo aniversário deste evento (1997 no máximo) já ocorreu e passou (sem nenhum apocalipse)
Mesmo aqueles que não seguem os dogmas cristãos mostram uma grande tendência em considerar o começo do novo milénio como uma data especial. É verdade que uma mudança de ano em que tantos algarismos mudam entre o número anterior e o posterior não é muito frequente - bastante raro na história humana documentada, portanto, estarmos vivos nessa altura parece ser uma razão suficiente para comemorar.
Porém, existe um significado mais profundo que tem a ver com a condição do ser humano. A longo prazo, nós dividimos a história em séculos e milénios, especialmente se (como hoje em dia as pessoas tendem a fazer) nós vemos a história como sendo uma progressão de uma condição de menor desenvolvimento para um maior desenvolvimento. Em alguns aspectos, "progresso" é bastante claro - nós viajamos mais depressa, podemos produzir muito mais alimentos (mas ainda não distribuir a todos quantos necessitem), sabemos muito mais acerca do modo como processos naturais funcionam e temos usado esse conhecimento para produzir coisas impressionantes. Poder-se-á questionar se a pessoas hoje vivem melhor do que à cem, quinhentos ou mil anos atrás. Talvez a pobreza durante a idade média em Londres e Paris sejam equivalentes à pobreza existente hoje em dia nessas mesmas cidades. Talvez a exploração dos camponeses pelos senhores feudais seja equivalente à exploração dos trabalhadores hoje em dia pelos grandes conglomerados capitalistas ou pelos corruptos e/ou incompetentes governos. Mas nós não temos estado parados. Na tecnologia do assassínio em massa e genocídio, seguramente que avançamos bastante em relação à tecnologia existente à cem anos atrás. A exploração dos recursos naturais tem sido feita com uma tal eficiência que talvez um dia a terra se vingue e nos faça desaparecer de uma vez por todas..
Talvez o novo milénio seja o começo de uma melhor época, não apenas para a elite privilegiada, mas também para o homem e mulher comuns, e mesmo para os outros animais com os quais nós partilhamos este planeta. Talvez nós devamos aprender a rejeitar uma autoridade fora de moda, ofuscante e espiritualmente empobrecida e assumir as responsabilidades pela nossa própria salvação, usando a nossa inteligência natural para criar um mundo melhor para todos. Talvez a esperança que isto venha a suceder seja uma razão para comemorar 1 de Janeiro do ano 2000 como sendo a entrada numa nova era.


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